domingo, 29 de agosto de 2010

Criança sobralense tem envelhecimento precoce


envelBRASIL: 29/08/2010 - O casal Maria Gorete da Silva e Raimundo Nonato de Sousa, na periferia de Sobral, vem sofrendo um drama: a filha mais nova, Jocélia Silva, 9 anos, é uma das 63 pessoas do mundo a ter uma doença raríssima, que provoca o envelhecimento acelerado e precoce, a progéria ou síndrome de Hutchinson-Gilford. No Brasil são conhecidos três casos: o de Jocélia, no Ceará; um em São Paulo e outro na Paraíba. Mesmo com este quadro, Jocélia tem um sonho de menina que é ter um quarto só para ela na casa humilde, no bairro Paraíso das Flores.

Os casos são tão raros que há escassez de informação, mesmo no meio médico, sobre o problema. No Brasil, não há dados oficiais, mas a organização não governamental de pesquisa americana Progeria Research Foundation (PRF) já detectou a existência de três pacientes de progéria. Um desses casos é o da menina Jocélia. Raríssima e sem cura, a doença faz crianças envelhecerem muito mais rapidamente do que o normal, em cerca de sete vezes mais rápido que o natural. Ou seja, são crianças com problemas de saúde iguais aos de gente idosa.

Uma criança com progéria tem uma expectativa média de vida de 14 anos para as meninas e 16 para os meninos. Segundo estudos, a progéria afeta um em cada oito milhões de recém-nascidos. Entre as características mais comuns, a baixa estatura, a pele seca e enrugada, calvície, olhos saltados e doenças típicas da velhice. Jocélia já perdeu vários dentes, sente constantes dores pelo corpo e problemas digestivos e respiratórios. A mãe Maria Gorete diz que não pode trabalhar porque a menina precisa de cuidados constantemente.

Ela gosta de brincar de boneca e de estudar. Tudo normal para uma criança, se não fosse uma doença rara. Jocélia da Silva tem 9 anos, mas é como se tivesse cerca de 65 anos. Segundo os pais, eles notaram a doença logo nos primeiros dias de vida da criança. A menina que aparentemente tinha nascido normal, começou a apresentar mudanças na coloração da pele e perda acelerada de peso. Foi quando levaram a menina para um hospital, mas nada foi comprovado sobre o que estava acontecendo com a pequena Jocélia.
Só dois anos depois, após várias crises, é que foi diagnosticada a doença. Durante todo este período, a família sofreu, levando a pequena Jocélia de um lado para outro e sem resultados. “Os dois primeiros meses foram terríveis. Não sabíamos o que estava acontecendo com a nossa filhinha. Eu levava para um médico e ele dizia uma coisa. Levava para outro, já era outra história. Eu sei que já estava cansada de tanto andar e não chegar a lugar nenhum. Quando ficamos sabendo, não sabia se me alegrava por agora saber o que era exatamente o problema, ou se me desesperava em saber que a minha filha estava com uma doença que não tem cura”, enfatizou a mãe Maria Gorete.

No início, o tratamento estava sendo feito em Fortaleza. Começou outra dificuldade. Os pais não tinham condições de pagar as passagens de ônibus e só conseguiam viajar com a ajuda de voluntários. Dona Maria Gorete falou sobre as dificuldades: “Eu procurei muitas vezes a ajuda da Prefeitura, do Poder Público, de vereadores, mas nunca consegui. Hoje, finalmente eu já recebo uma ajuda da prefeitura. Mas, no começo foi muito humilhante e doloroso”.

Há pouco mais de um ano, Jocélia passou a ser tratada na Santa Casa de Misericórdia de Sobral, mas continuam as dificuldades de deslocamento da menina. “Quando a Jocélia tem as crises eu preciso levá-la para o hospital com urgência porque ela sofre muito com as dores. Quando eu tenho dinheiro, eu mesmo a levo em uma moto; quando não tenho, fico aflita, sem saber o que fazer. É que aparece alguma pessoa e nos ajuda. Quanto aos medicamentos, alguns deles que eu não recebo no Posto de Saúde, são bem caros e sempre é uma grande dificuldade. O meu sofrimento tem sido grandioso, mas enquanto Deus me der forças eu vou lutar pela vida da minha filha”, desabafou Maria Gorete.

O pai de Jocélia, Raimundo Nonato de Sousa, disse que tem sofrido bastante com a doença da filha. Trabalha vendendo cafezinho com bolo e o que ganha, segundo ele, não dá para o sustento da família, que é composta de oito pessoas: “A nossa situação já esteve muito pior, mas ainda é muito difícil. Aqui em casa apenas eu trabalho para trazer sustento da família e tem vezes que falta até o que comer. Quanto a mim, a esposa e os outros filhos não têm problema porque a gente come o que tiver. A nossa preocupação é com a Jocélia porque ela não pode comer qualquer coisa. A alimentação dela é de frutas, verduras e carne bem cuidada. Tudo isso requer custos e, infelizmente, não temos condições para isto todos os dias”, falou Raimundo Nonato.

Solidariedade - A pequena Jocélia procura ter uma vida normal. Ela vai à escola, brinca com amigos e quando pode passeia com os familiares. “Sabemos da limitação da Jocélia. O médico dela nos disse que, até para o tratamento dela, seria bom que nós a tratássemos como se ela não tivesse nenhum problema grave. Para que ela se sinta normal, igual às outras crianças da idade dela”, falou Maria Gorete.

A família tem outra luta, além do tratamento e dos cuidados com Jocélia, que é realizar o seu sonho com a reforma da casa para a construção de um quarto somente para ela. Com a ajuda de voluntários, já teve início a construção. E Jocélia já está fazendo planos: “Eu pedi o meu pai para pintar o meu quarto de rosa. Vou colocar as minhas bonecas e chamar as minhas amigas para brincar comigo, porque eu não posso pegar sol. Estou muito feliz e já sonho com o meu novo quarto”.

Muitas pessoas, comovidas com a história de Jocélia, estão ajudando. Uma delas é Sílvia Regina, técnica de enfermagem. Desde que descobriu o problema da menina, ela tem se envolvido em buscar ajuda. Ela lamentou a falta de apoio por parte do Poder Público. “Esta família vem sofrendo muito com esta situação. Não é fácil ter que cuidar de um filho, sabendo que a doença do filho não tenha cura. O pior é ver que quem poderia ajudar não está ajudando como deveria ajudar. Lamento tudo isso. Eu vejo a garra que toda a família tem. Até mesmo a Jocélia demonstra uma felicidade que muitos, tidos normais e saudáveis, não têm. Tenho aprendido muito com este caso e vou ajudar até o fim”, disse Silvia Regina.

O secretário da Saúde e Ação Social de Sobral, Carlos Hilton Soares, destacou que o Município vem apoiando através do PSF do bairro. “A pequena Jocélia vem recebendo o apoio dos profissionais do Posto de Saúde da Família do bairro, os medicamentos, mas podemos estar falhando em algum ponto. Se isso estiver ocorrendo, gostaria de saber, até para ajudar neste caso. Estamos sensíveis a este fato e lamentamos que uma sobralense tenha sido acometida com esta doença, mas nos colocamos à inteira disposição para ajudar”, falou o secretário.

Serviço - Caso queira ajudar a Jocélia, fazer contato através do telefone (88) 9612-2882. Ou diretamente na residência de seus pais: Rua Manoel Artur Frota, 80, bairro Paraíso das Flores, próximo à estação do SAAE, Sobral (CE).

Fonte: Grande Sobral