Luiz França Belchior Silva, afastado por 180 dias do Tribunal de Justiça do Maranhão, é apontado pela Polícia Federal como peça-chave de uma organização criminosa que ‘capturou’ a Corte para comercializar decisões judiciais
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| O desembargador Luiz de França Belchior Silva, da 3ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Maranhão Foto: Divulgação/TJMA |
O Estadão pediu manifestação do desembargador no dia 1º de abril, data em que a Polícia Federal cumpriu busca e apreensão no gabinete de Belchior. O espaço para defesa segue aberto.
A Polícia Federal trata a transferência de R$ 69 mil ao filho de Belchior - ocorrida em abril de 2024 -, como elemento central que descortinou a suposta venda de sentenças pelo desembargador. O valor saiu da conta da empresa Lucena Infraestrutura, cujo sócio é o empresário Antônio Edinaldo da Luz Lucena, que foi alvo de busca e apreensão no estouro da Operação Inauditus.
O Estadão busca contato com a defesa de Lucena e da empresa que efetuou o pagamento ao filho do desembargador. O espaço está aberto.
Na percepção dos investigadores, “sendo coincidência ou não, o que se verifica é que, após o pagamento, foram prolatadas três decisões favoravelmente a Manoel Ribeiro”, ex-deputado estadual do Maranhão por seis mandatos consecutivos e presidente da Assembleia Legislativa entre 1993 e 2003.
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| O desembargador Antônio Pacheco Guerreiro Júnior, afastado do TJ do Maranhão e alvo da Operação 18 Minutos Foto: TRE/MA |
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| Operação Inauditus investiga um esquema de venda de sentenças, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa no Tribunal de Justiça do Maranhão Foto: Divulgação/PF |
A Operação Inauditus foi estruturada após o empresário Maurílio Ramalho de Oliveira fechar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal e relatar detalhes do suposto esquema de venda de sentenças que ‘capturou’ o Tribunal de Justiça do Maranhão.
Segundo Maurílio, em novembro de 2020, uma decisão de primeira instância foi desfavorável a Manoel Ribeiro em uma disputa com outro empresário, o que acabou prejudicando a atividade agrícola desenvolvida por Maurílio na área envolvida no processo. De acordo com o delator, Manoel Ribeiro teria negociado o pagamento de R$ 250 mil para reverter o resultado na segunda instância.
O valor teria sido direcionado ao desembargador Antônio Pacheco Guerreiro Júnior, que seria responsável por julgar o caso. O magistrado foi alvo da Operação 18 Minutos, em agosto de 2024, e acabou afastado pelo Conselho Nacional de Justiça sob suspeita de irregularidades na construção do Fórum de Imperatriz, no interior do Maranhão.
Ao Estadão, a defesa do desembargador Guerreiro Júnior, conduzida por seu filho, o advogado Antônio Pacheco Guerreiro Neto, nega envolvimento do magistrado com os ilícitos atribuídos pela PF.
O mesmo empresário que transferiu R$ 69 mil ao filho do desembargador Belchior em 2024, Antônio Edinaldo da Luz Lucena, já mantinha, desde 2020, relação com o desembargador Antônio Pacheco Guerreiro Júnior. Segundo a Polícia Federal, ambos “ocultaram ou dissimularam a natureza, origem, localização, disposição, movimentação ou propriedade de bens, direitos ou valores provenientes, direta ou indiretamente, de infração penal”, em um esquema ligado à venda de decisões judiciais.
A decisão do ministro Falcão que autorizou as diligências no início de abril afirma que “há indícios de que, após o afastamento do desembargador Guerreiro Júnior pelo CNJ, o esquema teria sido continuado junto ao desembargador Luiz França Belchior Silva”.
A quebra de sigilo bancário de Lucena identificou que ele transferiu R$ 800 mil, em 25 de novembro de 2020, para Marcelo Mota Silva, então genro do desembargador Guerreiro Júnior. Também foi registrado um cheque de R$ 25 mil destinado a Antônio Pacheco Guerreiro Neto, filho e advogado do magistrado.
Para a Polícia Federal, essas movimentações “reforçam fortes indícios de envolvimento do empresário com membros do Poder Judiciário e seus familiares, no Estado do Maranhão”.
Fonte: O Estadão


