sexta-feira, 24 de abril de 2026

Do breu aos bilhões: a liga de clubes como saída para mudar os horários e o futuro do nosso futebol

Com a diminuição da influência da Globo, clubes têm a oportunidade de ajustar horários e formatos para aumentar a presença de torcedores e receitas

CBF reuniu presidentes de clubes para dar início, pelo menos da parte dela, à criação da liga. Dirigentes das associações bateram tanta cabeça nos últimos anos que deixaram a brecha para a entidade entrar e tomar conta. Mas este é outro assunto, já batido. O que nos interessa é que, no encontro, a confederação apresentou um extenso material de como melhorar o futebol nacional.

O Brasileirão gera 1,8 bilhão de euros por temporada, nas contas da CBF, enquanto a Bundesliga fatura 5,1 bilhões, a La Liga, 5,5 bilhões, e a Premier League, 7,5 bilhões. Estamos falando respectivamente das entidades que organizam as primeiras divisões de Alemanha, Espanha e Inglaterra.

Embora possamos confessar aqui entre nós que alcançar esses europeus é uma utopia, pelo menos nos próximos dez anos, que dá para ganhar mais dinheiro do que hoje, dá. E o caminho passa pela formatação de campeonatos mais interessantes e acessíveis ao público, trabalho que a liga deveria se ocupar.

Em termos de calendário e acessibilidade ao estádio, há um fator simples e primordial: o Brasileirão tem apenas 20% de suas partidas disputadas com a luz do dia (início até 16h30), segundo o material da CBF. La Liga tem 40%. Bundesliga e Premier League têm 70% e 75%. Ou seja, os torcedores espanhóis, alemães e ingleses têm muito mais chances de ir ao estádio durante a tarde.

Brasileirão tem o menor número de jogos disputados durante o dia em comparação com grandes ligas. Foto: CBF
Os horários do futebol brasileiro foram influenciados nas últimas três décadas pela Globo, que jogava a transmissão para depois das 21h a fim de não atrapalhar a audiência da novela — de fato, historicamente maior do que o ibope do futebol. Escrevo essa constatação sem julgamentos. A emissora é a maior financiadora dos clubes nacionais, ela tem um interesse comercial válido e fez jus a seu poder.

A questão é que, desde 2025, a influência da Globo começou a diminuir sobre aspectos centrais da organização do futebol, como a confecção do calendário. Hoje há transmissões em Amazon, Record e CazéTV. E os clubes, que se diziam incomodados com as partidas disputadas à noite, têm a faca e o queijo na mão.

Horários do Brasileirão são dispersos, o que dificulta a vida do torcedor. Foto: CBF
Tudo bem, é verdade que os dirigentes nem sempre sabem o que fazer com a faca, e o queijo alguém pega sem que ninguém veja. Mas a oportunidade está aí.

O horário é só o começo da conversa. Nas 150 páginas apresentadas aos cartolas, a comparação das estruturas de transmissão dessas ligas é de dar desgosto. Seja na geração da imagem, na venda do direito internacional ou no alcance dessa exposição ao mundo, o Brasileirão está uma ou duas décadas para trás.


Estadão Esportes