O transcurso da vida nem sempre segue da forma esperada, e as surpresas acontecem muitas vezes para mostrar que haverá sempre uma jornada para ser superada, e está sendo assim na rotina da jovem Késsia, quis o destino, ao invés de continuar no cuidado aos doentes que lhes foram confiados, viver o outro lado da assistência na condição de enferma.
Ela relatou que tinha uma vida normal como mãe de família e trabalhadora da saúde. Não tinha nenhuma doença de base, à exceção de uma hipertensão arterial adquirida ainda na última gestação da terceira filha, mas alguns dias atrás, começou com fortes dores nos joelhos que vinham e iam embora na medida que tomava anti-inflamatórios. “Geralmente voltava à noite, de forma latejante, e esses sintomas aconteceram há quase três semanas, e daí a dor piorou como se estivesse subindo pelas pernas, coxa, virilha esquerda, foi quando decidi procurar ajuda para investigar”, lembrou.
Késsia começou a ser cuidada inicialmente em sua terra natal e passou pelos cuidados de três especialistas: a princípio um ortopedista para investigar as dores nos joelhos que diagnosticou uma artrose, depois um cirurgião vascular a fim de descartar uma possível trombose, mas afastada a suspeita, identificou um grande aumento dos gânglios nas virilhas, e por isso, foi recomendada a procurar um clínico que também se valeu de outros exames, pois desconfiava que as plaquetas estivessem baixas, e tinha a probabilidade de ser uma dengue ou chikungunya.
Entre idas e vindas aos médicos, sempre se queixava de fortes dores, ao ponto de sentir a vontade de arrancar os membros inferiores, tamanha era a dor. Sob os cuidados do clínico que decidiu pela internação para continuar com a investigação e se municiar de exames que pudessem respaldar o diagnóstico, os exames confirmaram a alteração das plaquetas, leucócitos e função hepática.
Para investigar melhor, o profissional que acompanhava o caso solicitou novos exames, dessa vez, uma ultrassonografia, tomografia, e uma série de outros exames de sangue, que novamente vieram com resultados nada favoráveis. “Foi quando o diretor clínico do hospital que estava internada, suspeitou de leucemia, mas ficou o impasse para a comprovação, pois só seria possível com a realização de uma punção da medula e lá não fazia”, relatou Késsia.
Segundo ainda a técnica de enfermagem, internada no hospital que trabalhava, ganhou a solidariedade dos colegas que perguntavam, davam opinião e tergiversavam sobre a possibilidade de ser uma doença autoimune, ou até mesmo, dengue hemorrágica, em razão da piora no quadro com apresentação de sangramento pela genitália, além do aparecimento de manchas roxas e pintas vermelhas por todo o corpo e olhos.
Diante do quadro, decidiram pela transferência da paciente e acionaram o sistema de regulação para a efetivação da internação num hospital de referência na capital, a fim de realizar a punção da medula e outros exames de sangue para confirmação da leucemia e o tipo.
Confirmada a leucemia, Késsia, desabafou que na espera do resultado do tipo, fica com um turbilhão de pensamentos e de cara, o medo do desconhecido. Não esconde a ansiedade e se questiona: “o que vou passar e o que ainda vou sentir? Vou me recuperar, me curar? Mas com certeza vem o pensamento da morte, pois a palavra câncer é muito forte”, lamentou entristecida.
Ela lembrou que para os dias nada fáceis, resta ficar rezando e confiando em Deus, e o sentimento que alivia é o de gratidão por estar sendo cuidada pelos outros. “Outros questionamentos chegam como o que se deve dar valor a vida e o que não se deve dar tanto valor assim. Tantas coisas que vai passando e a gente não percebe. Tudo muda. É como se você tivesse vivendo uma nova vida, mas os meus planos é de me recuperar e voltar a trabalhar para cuidar da vida do outro”, disse esperançosa.
Ela destacou que tanto a evolução da doença, como o cuidado foi muito rápido e que não faltou assistência, mas lamenta a dor que a família está passando, porém acredita na superação por ser de muita oração e fé. “A lição que fica é que a vida é passageira e nesse Fevereiro Laranja procurem se cuidar. Se sentirem uma dor na unha, vão atrás, e valorizem pequenos sinais. Façam check-up anual. Às vezes, sentia pequenos sintomas como dores nos ossos, principalmente no frio, ou até mesmo pinicões no corpo”, lembrou.
Késsia Pereira destacou que o atendimento no Hospital São Vicente está ótimo e vê que o hospital segue as linhas do cuidado. “A psicóloga veio me visitar e vi que outras pessoas tem se importado comigo, procuraram saber de mim. Já recebi doação de sangue, pois preciso muito, e todos esses gestos fortalecem muito a gente. Minha mãe tem orado por mim e meu esposo, que está cuidando das nossas filhas, todo dia envia mensagem”, disse.
Companhia fiel, a professora de ensino superior e irmã caçula, Kássia Pereira, deixou a família e emprego no sertão para cuidar da mana, pois sempre na família quando um precisa, o outro chega junto. “As coisas nos pegam de surpresa, mas é preciso reagir na hora, e ela sabe que não está sozinha e pode contar conosco”, desabafou.
E quanta lição Kássia tem ensinado, não só aos seus alunos de uma faculdade privada em Cajazeiras, que ficaram na espera da mestra, mas naqueles que convivem ao ouvirem as confortáveis e sinceras palavras de fé e de esperança. “Por mais que tentemos buscar força nas coisas lógicas, é difícil, elas se vão, mas de fato é importante buscar apoio de Deus. Como tivemos uma educação muito religiosa, e na perspectiva, de estarmos no ano da esperança, me agarro ao pensamento que a esperança não decepciona, então isso acalma, deixa a gente mais tranquila”, desabafou.
Ela lembrou que vive um dia de cada vez, e por isso tem o dia de hoje, o agora. “Pensar quantos dias vou ficar aqui, não me ajuda. É muito difícil ter que dar força a ela, nesse momento, por ser um momento inicial da descoberta, do choque, do impacto da hora. Num diálogo com ela disse que viver vale a pena, então é pensar em viver e não que vai morrer daqui a um ano ou não sei até quanto tempo, mas pensar que a gente tem o agora para viver, e viver da melhor forma possível, da melhor forma que se conseguir, aproveitar até mesmo aquelas coisas banais, do dia-a-dia, que a gente deixa passar, como estar na companhia dos filhos, das pessoas que a gente gosta, de coisas que a gente gosta de fazer, de fato, viver e encontrar o sentido e a força pra viver e lutar pela vida”, destacou.
Ela lembrou que nesse Fevereiro Laranja, faz um alerta as pessoas para a necessidade de ficarem atentas aos sinais e ainda considerarem o uso de anti-inflamatórios e analgésicos para resolverem os sintomas que aparecem. “Em razão das ocupações da vida e do envolvimento com tanta coisa, a gente acaba esquecendo do principal que somos nós, da nossa vida. Não somente ter atenção, é fundamental, valorizar a nossa vida, buscar o nosso bem-estar e aquilo que realmente importa que é se cuidar”, advertiu.
CONSCIENTIZAÇÃO – Para a hematologista do HSVP, Carolina Rolo, o Fevereiro Laranja é um mês super-importante para a hematologia, pois conscientiza sobre as leucemias, educa a população e desmistifica sobre alguns subtipos da doença que normalmente assustam.
A médica destacou a necessidade da conscientização sobre os sintomas da leucemia aguda, o sinal quando procurar um serviço médico e também a importância como os profissionais da medicina podem conseguir ajudar um paciente com leucemia aguda. “E esse mês serve para nos alertar sobre a doação de sangue e de medula óssea”, lembrou.
Carolina Rolo explicou que a leucemia é um tipo de câncer das células do sangue, com a circulação de leucócitos tanto circulando, como pode estar infiltrando a medula óssea e que se divide em leucemias agudas e crônicas.
“As agudas são as mais famosas e mais graves, a instalação é muito rápida e ocorre uma parada na diferenciação de nossas células. A gente não vai mais conseguir formar células da medula maduras, e aos poucos, essas células que se chamam blastos vão infiltrar a medula óssea e essa infiltração é que vai gerar as principais complicações que vai ser anemia, plaqueta baixa e a diminuição da nossa defesa que são os neutrófilos, e isso tudo vai acarretar vários sintomas como fraqueza, facilidade para sangramento, como os sangramentos gengivais ou nasais espontâneos”, explicou a hematologista do HSVP.
Ela ainda lembrou que esses sintomas podem aparecer do nada, como também podem ser sangramentos graves, inclusive do sistema nervoso central, evoluindo com manifestações neurológicas. Além disso, o paciente pode ter perda de peso, febre, e suores noturnos, relacionados com a doença.
“Quando é de instalação rápida e tem o aparecimento dos blastos, a gente chama de leucemia aguda que pode se dividir em dois subtipos que é a Leucemia Mielóide Aguda (LMA) e a Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA), a última citada, mais comum na infância e ambas carecem de tratamentos agressivos que precisam exterminar essas células, mas com potencial curativo. Principalmente na infância, as chances de curar uma leucemia são muito altas”, disse a hematologista.
Ela também explicou que as leucemias crônicas, o mecanismo da doença é diferente, pois vai ter células maduras circulando, é muito comum ter os leucócitos muito altos, e ser um achado num exame. “Então é bem diferente da aguda que a gente descobre já com muitos sintomas”, informou.
“As crônicas, a gente descobre num achado de exame laboratorial quando o paciente faz um hemograma e percebemos um aumento de leucócitos ou linfócitos altos, neutrófilos subiram e iniciou essa investigação, mas ela pode gerar sintomas, principalmente, quando os leucócitos estão muito altos. Quando a linfocítica aguda está infiltrando a fábrica do sangue, pode causar anemia, plaqueta baixa e gerar sintomas parecidos com a da leucemia aguda, sendo que esses sintomas vão aparecer de forma arrastada e nos dá mais paciência para a investigação,” acrescentou Carolina.
Ela informou que as leucemias agudas normalmente quando diagnosticadas, se procura tratar para curar, não quer que a doença volte. A cura depende de vários fatores como a idade, o subtipo, a avaliação molecular e a performance do paciente. A cura nesses casos chega em torno de 50% dos pacientes.
Quanto às crônicas, ela lembrou que na maioria das vezes e normalmente, não se fala em cura, mas em controle, pois por exemplo, 1/3 dos pacientes com leucemias linfocíticas vão viver assintomáticos e que nunca vai precisar tratar. Já as mielóides crônicas, a identificação em 2000 foi uma revolução na onco-hematologia onde se descobriu um tratamento que antes para se conseguir controlar a doença de forma eficaz, quase todos os pacientes precisavam de transplantes alogênicos.
Ela lembrou que hoje esse tipo de transplante é exceção, pois existe uma terapia alvo administrada via oral que consegue controlar a doença e o paciente viver uma vida normal. “Alguns respondem muito bem, e depois de anos, conseguimos suspender a medicação e eles continuarem com a doença controlada, chamada de cura funcional,” explicou.
Na grande maioria das vezes, as suspeitas de leucemias agudas e crônicas são encaminhadas aos hospitais de referência como o Hospital São Vicente, que para a confirmação vai realizar uma série de exames como a coleta da medula óssea, imunofenotipagem e biologia molecular.
Após a confirmação do tipo, seja LMA ou LLA, o tratamento na grande maioria das vezes se inicia com a internação para a administração de um protocolo com vários tipos de quimioterapia, que após a remissão, o doente é encaminhado para a 2ª fase, dependendo do tipo, encaminhado para o transplante de medula alogênico em Natal ou Recife. “Quanto mais doadores cadastrados, mais aumenta a chance de conseguir um compatível”, informou Carolina.
Ela lembrou que o tratamento das leucemias crônicas é ambulatorial com a administração de drogas orais. “Chamamos a atenção da doação de sangue (principalmente plaquetas) e de medula óssea para salvarmos vida”, apelou a hematologista.
ESTRUTURA – O Hospital São Vicente conta com 10 leitos para internação da hematologia e quatro especialistas que atuam nas enfermarias e ambulatórios. A unidade hospitalar realiza por mês uma média de sete internações de pacientes com leucemia e cerca de 56 quimioterapias para o tratamento, dependendo do tipo da doença.
Assessoria