Hoje, a história política e social da Paraíba relembra uma de suas páginas mais dolorosas e, ao mesmo tempo, mais determinantes. Em 12 de agosto de 1983, a fúria do latifúndio tentava calar, com um tiro de espingarda calibre 12 no rosto, a voz de Margarida Maria Alves. Ela foi assassinada na porta de sua casa, em Alagoa Grande, na frente de seu marido e de seu filho de apenas oito anos.
Mais do que uma lembrança trágica, a data de hoje é um marco de resistência que moldou o sindicalismo rural e os movimentos de direitos humanos no Brasil.
Quem foi Margarida e por que a mataram?
Margarida foi uma das primeiras mulheres a presidir um sindicato de trabalhadores rurais no país. À frente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, ela ousou bater de frente com usineiros e grandes proprietários de terra da região do Brejo paraibano.
Sua luta exigia o óbvio, mas que na época era tratado como afronta:
- Carteira de trabalho assinada para o homem e a mulher do campo.
- Respeito à jornada de trabalho de 8 horas.
- Pagamento do décimo terceiro salário e férias.
- Direito à terra e o fim dos despejos violentos.
Abaixo das ordens de latifundiários ligados ao "Grupo da Várzea", a execução de Margarida foi uma tentativa explícita de paralisar as denúncias de abusos trabalhistas.
A Impunidade e o Legado
Embora as investigações tenham apontado fazendeiros e usineiros como mandantes, e policiais e pistoleiros como executores, a justiça falhou. O processo arrastou-se por décadas entre tribunais, recursos e manobras jurídicas, resultando na absolvição dos principais acusados ou na prescrição dos crimes. Ninguém pagou formalmente pelo sangue derramado naquela calçada.
No entanto, se os assassinos achavam que enterrariam a sua causa, eles erraram o alvo. As ideias de Margarida germinaram.
Sua frase mais famosa tornou-se profética: "Da luta não fujo. É melhor morrer na luta do que morrer de fome."
Por que lembrar hoje?
Relembrar Margarida Maria Alves na Paraíba de hoje é constatar que a violência no campo mudou de face, mas não desapareceu. É também celebrar a força das mulheres que, inspiradas por ela, realizam a Marcha das Margaridas — a maior mobilização de mulheres trabalhadoras da América Latina.
Margarida não virou apenas nome de rua ou de assentamento; ela virou semente. Lembrar o dia de hoje é manter vivo o compromisso com a justiça social, com a dignidade da agricultura familiar e com a memória daqueles que tombaram para que os trabalhadores de hoje pudessem ter direitos.
Margarida Maria Alves: Presente, hoje e sempre!
As engrenagens da impunidade: O sumiço das provas
O desfecho de impunidade no caso de Margarida Maria Alves não foi um acidente, mas o resultado de um processo marcado por erros, omissões e pelo apagamento deliberado de evidências. A começar pela cena do crime: a arma utilizada no assassinato — uma espingarda calibre 12 que desfigurou o rosto da líder sindical — nunca foi encontrada pela polícia. Sem o armamento para a realização de uma perícia balística direta, a materialidade técnica do crime foi severamente comprometida desde as primeiras horas.
Além do desaparecimento da arma, a engrenagem do silenciamento operou de outras formas brutais ao longo das décadas em que o processo arrastou-se na Justiça:
- Queima de arquivo: Testemunhas-chave e coautores do crime, como o motorista Biu Genésio (apontado como o motorista que transportou os executores), foram assassinados antes que pudessem prestar depoimentos definitivos.
- Morosidade calculada: O processo levou mais de uma década para que o primeiro julgamento de grande relevância acontecesse, dando tempo para que os mandantes ocultassem provas e articulassem defesas jurídicas complexas.
- Falta de proteção: Testemunhas que sobreviveram relataram terem sido alvo de ameaças constantes no Brejo paraibano, o que esvaziou a sustentação das acusações nos tribunais.
Essas falhas investigativas e a eliminação sistemática de provas serviram de bandeja para que os advogados dos usineiros e fazendeiros alegassem "falta de provas" nos tribunais. O Estado brasileiro falhou duas vezes com Margarida: primeiro ao não protegê-la das ameaças que ela denunciava publicamente, e depois ao permitir que o poder político e econômico blindasse os culpados de irem para a cadeia.
Redação
